seg. mar 25th, 2019

Os riscos do capim Massai para cavalos

Problemas vão desde cólica até a morte do animal

 

O capim Massai, variedade do gênero Panicum, embora seja recomendado para equinos pelo excelente valor nutritivo e alta palatabilidade, há ressalvas de utilização, devendo ser manejado adequadamente para se evitar riscos à saúde do animal e, em alguns casos, até a morte, como aconteceu em um haras na cidade de Nova Soure (BA), em outubro de 2016.

Na ocasião, 11 animais da propriedade foram acometidos simultaneamente por fortes cólicas, e quatro evoluíram para óbito após pastejo em pastos de Massai. “Usávamos o Massai e o Mombaça, alimentação com volumoso, há dois anos. De vez em quando, um animal apresentava desconforto abdominal, necessitando atendimento veterinário, até que ocorreram as mortes”, relatou o proprietário do haras, Fred Villa.

Segundo ele, além da necropsia realizada nos cavalos mostrar lesões intestinais semelhantes a de animais acometidos pelo mesmo problema com o Massai, foi feita análise da ração usada na alimentação dos cavalos e descartada contaminação do produto, ficando comprovado que as mortes foram realmente causadas por causa do capim.

Villa explica que nos Estados da Região Norte do país há vários relatos de mortes de equinos relacionadas ao capim Massai em épocas de chuvas, quando o índice de pluviosidade é grande. “Aqui no haras, como é sertão e não chove muito, não imaginávamos que pudéssemos ter o mesmo problema. Porém, o fato de ser uma cultura sob irrigação diária, simulou o mesmo ‘período de chuvas’ que ocorre na Região Norte. A partir de então resolvemos trocar todo o capim Massai por gramíneas da família Tifton e não ocorreram mais casos de cólica na propriedade”, explica.

O veterinário Fabrício Juliano de Oliveira Campos também presenciou uma situação catastrófica no Haras Santa Maria, em São Miguel do Aleixo (SE), onde foi fornecido a 21 animais em baia capim Massai. “Os cavalos ingeriram o capim à tarde e, na manhã seguinte, 12 deles apresentaram fortes cólicas abdominais.”

Na tentativa de reverter o quadro, conta Campos, cinco cavalos foram encaminhados para cirurgia, porém, três morreram antes de serem operados e um, o garanhão do haras, acabou vindo a óbito após a cirurgia. “É uma situação horrível de enfrentar”, lamenta o veterinário, e completa: “A necropsia apontou que a causa foi realmente o capim Massai.”

Campos conta que o capim havia sido plantado há mais de dois anos e era fornecido basicamente uma vez por mês aos animais, sendo que nunca houve relatos de contratempos antes, mas após esse período aconteceram as mortes. “Algumas literaturas informam que o capim Massai, após 2 anos, começa a produzir um carboidrato que é indigesto para equinos, o que acaba levando a esse quadro de atonia, que é a falta de movimentação intestinal, aumento de produção de gases, gerando timpanismo, e os animais acabam vindo a óbito por falta de movimentação intestinal e toxemia causada pelas bactérias que estão no trato digestivo”, esclarece.

Onde mora o perigo

Para o Professor da ESALQ-USP, Cláudio Haddad, o grande risco à saúde do equino reside no fato de se efetuar o pastejo com o capim Massai em adiantado estado de maturidade, ou seja, colocam cavalos para pastejar capim passado, muito fibroso, e com baixa relação folha/haste (muito talo e pouca folha).

“Essa condição provoca constipação do trato digestivo, evoluindo para um estado de cólica e levando o animal a óbito. Pessoalmente, tenho e utilizo o capim Massai há oito anos, sem nenhum problema, e não tenho receio de recomendá-lo para utilização na alimentação de equinos. Se o animal for introduzido em um pasto em crescimento, com alta relação folha/haste, não haverá nenhum problema, e ele aproveitará todo o excelente valor nutritivo da forrageira”, esclarece.

Haddad afirma que muitos estudos foram e ainda são realizados procurando um agente causal biológico, tal como fungo, protozoário, bactéria, para a mortalidade de equinos relacionada ao capim Massai. Embora as pesquisas sejam válidas, na opinião do professor, a causa é distinta, meramente física: muita fibra causando constipação.

“Na grande maioria dos haras que conheço que utilizam o capim Massai não existe o problema, ou seja, não há mortalidade por cólica. Por que? Porque em haras, o manejo dos piquetes é correto, com observância de momento de entrada e saída dos animais, procurando sempre fornecer forragem de alta relação folha/haste, ou seja, material folhoso e de alto valor nutritivo e palatabilidade. É o modo correto de manejar essa forrageira, que é excelente para equinos.”

A mortalidade quando ocorre, explica Haddad, normalmente é em fazendas de gado de corte, em piquetes de Massai destinados à tropa. Como o capim Massai é de rápido crescimento e os piquetes são dimensionados em grande tamanho (típico de fazendas de corte), a tropa não consegue consumir o capim quando há bastante folha na forragem e o material envelhece (amadurece), aumentando perigosamente a proporção de colmos (talos) em relação às folhas. Nesse estágio, o perigo aumenta e ocorrem as cólicas.

“Nessas fazendas, dificilmente você encontra um profissional habilitado a atender os casos de cólica equina e o tempo é fundamental, então as mortes se avolumam. Cheguei a testemunhar propriedades onde morreram dezenas de cavalos, simplesmente porque insistiram em manter animais em pasto passado. Isso dificilmente ocorreria num haras, onde a preocupação em fazer o pastejo em pastos com boa relação folha/haste é uma constante.”

A sugestão do professor para evitar a mortalidade de equinos devido à ingestão de capim Massai é simples: deve-se diminuir o tamanho dos piquetes para a tropa (efetuar divisões mais racionais) e utilizar roçadeira quando o capim apresentar sinais de amadurecimento. “Roçando um capim passado, eliminam-se os colmos e estimula-se o crescimento de novas folhas. Isso se não quisermos utilizar o pastejo bovino para eliminar os indesejáveis colmos.”

Na opinião de Haddad, o melhor tipo de capim para cavalos pertencem ao gênero Cynodon: Tifton 85, Jiggs, a estrela africana (estrelinha branca), entre outros. “São os melhores capins, mas somente propagados por mudas, o que se torna mais caro e não utilizados nas fazendas de gado de corte. Já nos haras, cerca de 95% de todas as forragens existentes e utilizadas pertencem ao gênero Cynodon, que apresentam grande plasticidade de uso (se amadurecer o cavalo ainda consome sem grande prejuízo), alto valor nutritivo, alta capacidade de colonização da área, possibilidade de ser fenado, entre outras vantagens”, finaliza Haddad.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *